4 de ago de 2011

Rio de Janeiro, a reconstrução de uma cidade

O Rio vive um momento de muitos projetos e obras acontecendo ao mesmo tempo, uma verdadeira transformação que certamente está mexendo nos usos e costumes da vida da Cidade. Uma parte justificada como contrapartida para os compromissos assumidos pela Prefeitura de proporcionar infraestrutura compatível com a Copa do Mundo de Futebol em 2014 e as Olimpíadas de 2016.

O que me preocupa é a grande distância que se coloca entre aquilo que é estudado, projetado e planejado como ideal e o que é realmente recomendável transformar, pois estamos tratando de patrimônios cultural, social, ambiental e paisagístico, ou seja, aquilo que é real.

É imprescindível que as mudanças, bem-vindas, combinem  os usos e costumes do cotidiano que fez deste local uma Cidade com vida própria e personalidade, exatamente o que possibilita que ela seja o que é.

Aproveitei o recesso da Câmara para visitar a Zona Oeste, ver como estão essas obras e acompanhar a realidade da cidade hoje.

Constatei que o Rio já virou um gigantesco canteiro de obras. Obras não só públicas, mas uma infinidade de edificações corporativas surgindo em áreas antes compostas por sitiantes e casas muito simples. Vi muitos quilômetros de vias sendo construídas, ampliadas e reparadas ao longo do meu trajeto, mas vi também muitas árvores centenárias removidas em nome desse progresso.  Regiões que por muitas vezes visitei com minha família, na busca de paz e tranquilidade, foram completamente modificadas, perdendo sua característica natural.

Preocupado com o impacto que essas construções estariam causando na população, parei para conversar com as pessoas e constatei que elas vivem um clima de incerteza muito grande. Muitas acreditam que essas obras trarão melhorias para a região onde moram, mas não sabem dizer a que preço isso se dará. Uma coisa é certa, nada ali será mais como conhecemos um dia.

Será que para sediar eventos tão notáveis como a Copa do Mundo e as Olimpíadas teremos como compensar todos os estragos ambientais deixados com o passivo dessas obras?

Será que teremos mesmo um plantio compensatório de toda a vegetação perdida nas áreas degradadas?

Teremos continuidade na qualidade de vida da população dessa região como outrora?

São perguntas que gostaria de ter respostas.

Em visita a um templo budista da região, constatei a preocupação de seus dirigentes quanto à perda de parte dos terrenos particulares por consequência do alargamento de estradas, do desmatamento de vegetação nativa e do impacto que isso pode ocasionar não só no comércio, mas na sociedade como um todo.

Pensei em outras situações também importantes do cotidiano do Rio. Basta analisarmos algumas das matérias hoje nos jornais:

Depois da poda ou corte das árvores na cidade, feitas pela Comlurb, os resíduos são levados para o Caju e depois Aterro Sanitário, quando consta que podiam ser reaproveitados (são podadas em média 3.500 árvores por mês e retiradas 400), ou seja, o assunto não tem uma solução ambientalmente sustentável, embora essas palavras, ambientalmente e sustentável, parece que foram incorporadas aos discursos institucionais e também da sociedade.

Na Ilha do Fundão, toneladas de cimento, tijolos, madeira e ferro que sobraram da implosão do "perna seca", parte do Hospital Clementino Fraga Filho, em dezembro de 2010, continuam no  mesmo lugar, embora tenha sido anunciado à época que esses resíduos seriam vendidos e a renda iria para os centros de convivência de idosos na região Serrana, uma solução sustentável que até o momento não aconteceu.

Cinco meses depois de transferida do Tribunal de Justiça para um imóvel cedido pelo município no bairro do Santo Cristo, a Emerj (Escola da Magistratura) anuncia que pretende voltar ao centro do Rio. Houve queda no número de matrículas e desistência de professores em dar aula, configurando uma não adaptação à mudança que aconteceu em meio a instalações nem ao menos concluídas. Era uma adesão ao projeto de revitalização da área do Porto na Cidade, mas não se contemplou que as pessoas precisavam nele inserir e adequar o seu cotidiano.

Pesquisadores e arqueólogos do Instituto de Arqueologia Brasileira, local de formação de pesquisadores, referência para a Arqueologia do nosso país, instalada na avenida Dom Hélder Câmara, Del Castilho, num casarão conhecido como casa da Fazenda do Capão do Bispo, estão circulando abaixo-assinado eletrônico para não terem que deixar o prédio que a instituição ocupa desde 1961, pois já foram informados de que não há mais interesse do Estado em manter sua ocupação naquele local e agora há uma promessa de transformar o prédio em centro cultural: destina-se ao local um novo uso, desalojando o antigo uso que o tornou o que é, exatamente um centro de referência, pesquisa e cultura.

Com todos esses exemplos de obras que impactam a cidade de forma não sustentável, fico apreensivo, como integrante do Partido Verde, de ver o pouco ou nenhum cuidado em dimensionar o passivo deixado como resultado desse progresso. Seguindo este caminho, temo que, num futuro próximo, teremos muito que responder a nossos filhos e netos sobre o que fizermos com a cidade deles.

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